Visita ao Tomie Ohtake: Thom Mayne e Tecnofagias

Por recomendação do orientador, visitei duas mostras relevantes à minha pesquisa, que acontecem no instituto Tomie Ohtake.


A primeira foi a 3ª mostra 3M de arte digital: Tecnofagias.

A curadora Giselle Beiguelman, escreve:

A exposição reúne artistas que se destacam pelo uso crítico e criativo das tecnologias e mídias. Em suas abordagens, evidenciam a combinação entre o high e low tech e as novas acomodações entre saberes imemoriais e de última geração. Em uma frase, as relações entre a ciência de ponta e a ciência de garagem.

Confesso que há algum tempo eu não visitava nenhuma exposição não-virtual, apesar de me a experiência ter me agradado muito. Minha intenção durante a visita foi tentar desvendar aspectos das obras que dialogassem diretamente com a pesquisa e assim, analisando a exposição segundo os meus filtros – que infelizmente se tornaram demasiadamente técnicos de uns dois ou três anos pra cá em resposta à constatação involuntária de que pouco compreendo a arte e que portanto não devo emitir opiniões sobre o assunto -, foquei me no fato de que muitas das obras, equipadas com placas controladoras e sensores, enfatizam a interação com o visitante e reagem à sua presença: ao peso, ao toque, ao movimento, a presença de seus celulares.

Segundo esse critério, entre as instalações e peças mais marcantes, ficaram destacadas na minha memória:

  • A obra XYZ, de Raquel Kogan. O visitante está num ambiente escuro, enquanto caixas de som são destacadas com uma iluminação dramática, descendente. O visitante é convidado a ficar em pé em uma área do pisto, com um dos dedos sobre um sensor. A obra então reage: usando o peso, a altura e o ritmo dos batimentos cardíacos, uma placa controladora sintetiza uma harmonia sonora que de alguma forma reflete esses dados. Não sei se são sons pré-gravados ou se os dados passam por algum tipo de modelagem paramétrica e participam de fato da construção do som.
  • Usando um Arduino UNO, Lucas Bambozzi montou a instalação das coisas quebradas que, ao detectar um certo número de campos eletromagnéticos emitidos pelos celulares dos frequentadores que se aproximam, responde ao estímulo acionando (o que parece ser) um mecanismo de correias de bicicleta, engrenagens e um prensa elétrica que destrói um celular antigo. Me pareceu uma crítica ao ritmo forçado de consumo, descrito pelo ciclo de aquisição por impulso e obsolescência prematura. O discurso do artista elabora questões mais abstratas e complexas, como o elo entre as redes (o fluxo de informação) que nos circundam e controlam. A obra em si é a “simulação física de um mecanismo contínuo, que opera entre as redes e o mundo real, onde a autonomia eventualmente caduca, os princípios se mostram obsoletos e percebemos que estamos na era da Internet das coisas quebradas.” (citação retirada da página do artista)
  • A escultura in_existences-out do argentino Rafael Marchetti, apresenta-se como um conjunto de seis estruturas com um cabo central, ligados a motores; e duas hastes flexíveis laterais. Não pude vê-la em movimento porque provavelmente as adaptações ocorrem lentamente, ao longo do dia, mas lendo sobre a obra descobri que reage a variações no ambiente: circulação do público, do ar e mudanças na temperatura, portanto deve coletar dados com sensores de movimento ou câmeras e um sensor de temperatura. Os seis elementos têm movimentos independentes e imprevisíveis: tensionam e relaxam-se usando os estímulos coletados do entorno mas a transcrição do estímulo ao estado formal é regida por caminhos imprevisíveis, algo que o artista chama de “indeterminismo de estados”.
  • Mirror é a obra da dupla Rejane Cantoni e Leonardo Crescenti. Trate-se de uma superfície espelhada flexível que reage à distância do observador, tornando-se côncavo com a aproximação e convexo com o distanciamento.

A segunda foi a exposição dos projetos do arquiteto americano Thom Mayne – Morphosis, formas combinatórias:

Pra mim um dos aspectos mais impressionantes da obra de Mayne – um arquiteto que até então eu desconhecia – é a aparente fragmentação heterogênea com que os elementos parecem se articular nas diversas dimensões das construções documentadas sob diversas óticas na exposição em fotos, desenhos, maquetes e modelos virtuais.

É natural que eu não tenha conseguido absorver questões muito profundas do seu discurso num contato tão casual, então ao chegar em casa procurei fontes de informação que pudessem dar sentido ao que eu tinha visto, que recheassem o primeiro impacto formal com percepções mais completas. Encontrei um vídeo de uma palestra que o arquiteto deu para a organização sem fins lucrativos TED: Ideas worth spreading (ao lado) e percebi que minha impressão sobre a obra de Mayne, que descrevi no paragrafo anterior como visualmente fragmentada, não estava completamente equivocada, mas incompletas: determinadas camadas do discurso não podem ser deduzidas através de mera observação desinformada.

São conceitos chave, repetidos ao longo da palestra, a arquitetura como processo, concebida durante o processo de detecção e organização de variáveis, cujo fim não pode ser antecipado; e a arquitetura como uma negociação entre o plano do imaginário – das ideias, das intenções – e do real – do ‘mineral’, como chama o arquiteto; do espaço disponível e suas idiossincrasias, da relação entre construção e solo, dos materiais e das possibilidades de respostas espaciais trazidas pelas ferramentas eletrônicas criativas.

Para Mayne lidar com a confluência de forças, discutir suas sobreposições e definir soluções que acomodem-nas, são passos generativos da forma. Os sistemas distintos que compõe a construção são citados com frequência, acompanhados de exemplos como a eliminação do ar condicionado, as necessidades de iluminação, a transparência reveladora da estrutura (e portanto do processo construtivo do edifício), a pele que se destaca da estrutura como elemento independente, a comunicação com tipologias significativas do entorno e a preocupação com as complexidades do tecido urbano e da cultura local – o arquiteto julga ser importante que a obra possa inserir-se num local específico ao mesmo tempo refletindo esse contexto e costurando-o, tornando-o mais significativo.

No vídeo ele aponta os recursos de prototipagem rápida e modelagem paramétrica como ferramentas cruciais para que uma resposta a altura possa ser dada aos seus anseios teóricos. Foram justamente as maquetes que revelaram aspectos de maior interesse para esta pesquisa. Prototipadas com impressão 3D aditiva – mais especificamente uma técnica precisa, que envolve a deposição simultânea de pó e resina, que juntos formam um material resistente e de aparência superficial homogênea -, as maquetes de Mayne não são apenas objetos de apresentação de uma forma final, mas objetos de estudo, representação dos estágios de uma ideia, feitas para serem rabiscadas, modificados, debatidas e assim serem parte do processo criativo.

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